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segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mário Novello, um dos nomes mais importantes da física brasileira, foi um dos primeiros cientistas a dizer que Big Bang não é necessariamente o “começo-de-tudo”, embora ainda haja, segundo ele, quem considera esta identificação uma verdade científica. Para ele, isto não passa de resquícios de cosmogonias arcaicas que ainda povoam e infantilizam o imaginário da espécie humana.

Dedicando-se há anos ao estudo da origem e evolução do Universo e autor do livro O que é Cosmologia, publicado pela editora Jorge Zahar Editor, o professor titular do Instituto de Cosmologia e Relatividade Astrofísica concedeu ao Núcleo José Reis uma enriquecida e abrangente conversa, dividida em três partes. A primeira delas foi publicada na edição 34 da revista Espiral e inclui a Teoria da Pré-Gravidade, juntamente com os inesperados fenômenos observáveis os quais ela procura elucidar, sobretudo a expansão acelerada do Universo. Nesta segunda parte, Novello diferencia, de maneira simples e esclarecedora, os consensos científicos de hipóteses grandiosas a respeito do Big Bang.








"Costumo dizer a meus alunos que almejar Nobel é ter pouca ambição"

Vox Scientæ – No livro "O que é cosmologia" o senhor afirma valorizar os saberes tradicionais, incluindo as cosmogonias. Essa valorização vem do fato de elas procurarem explicar o "tudo-que-existe", papel que o senhor também atribui à cosmologia, embora o método e o conhecimento, em um e outro caso, sejam de natureza distinta?
Mário Novello – Veja bem, todas as civilizações em algum momento de suas histórias produziram mitos cosmogônicos de criação. Parece que a espécie humana dificilmente consegue organizar-se sem alguma referência aos “começos”. No momento atual, que apresenta uma sociedade globalizada e técnica, é fácil entender que o papel do mito de criação deveria vir da ciência, isto é, da cosmologia. Uma tal análise deveria levar inevitavelmente a respeitar o modo pelo qual, no passado, tratamos essa questão. Somente uma arrogância, ingênua e simplista, permite aceitar que aquilo que realizamos neste momento é (e para sempre) imensamente superior ao que fizemos no passado.
Essa ausência de perspectiva e de respeito pelos modos de apreensão do real e sua interpretação é, penso eu, um dos alicerces sobre os quais se organiza um positivismo simplista e desestruturante de um pensamento global. Entender os mitos cosmogônicos do passado não é retê-los como verdadeiros, mas sim dar-lhes o crédito merecido de gerador dos caminhos pelos quais chegamos ao que somos hoje. Só assim poderemos relativizar nosso modo racional de descrição da natureza e gerar uma coexistência pacífica e ativa com outros saberes, sem a necessidade infantil de impor, por arrogância ou ignorância, um dado saber como uma verdade absoluta. Mas note bem, esse respeito não deve ser confundido com uma relativização levada, de modo ineficaz, ao seu extremo. Esta é uma questão complexa, que traz aspectos não somente políticos como éticos, que nos levaria a uma longa conversa.


Vox – O senhor faz uma análise crítica de algumas definições de "cosmologia" e conclui afirmando que nenhuma delas — nem os físicos em geral — chega à questão de fundo dessa ciência (o "tudo") porque, além de generalista, ela remete a campos que estão além do alcance da física, como filosofia e religião. Além disso, propõe a refundação da física regional e da física como um todo, para que ela procure dar sentido a questões fundamentais como a formação (ordenação) do Universo e o vazio anterior a essa ordenação. Não é pedir muito a seres humanos cuja formação em ciência é essencialmente positivista e compartimentalizada? Nesse sentido, o senhor proporia então o surgimento de um "novo" cientista, capaz de entender a importância dessas questões fundamentais e ir a elas sem receio? Teríamos então de, em primeiro lugar, refundar as universidades, os institutos de pesquisa, para que atendessem às exigências de uma formação científica mais ampla, interdisciplinar? Há outras saídas?
Novello – Você tem razão. Estou particularmente me dirigindo aos jovens e por uma razão trivial: são eles que estão (ainda) interessados em sonhar, em produzir alguma coisa que poderia estar próximo de uma utopia. Nosso país, jovem no mundo da ciência, parece ser extraordinário e desagradavelmente velho em projetos inovadores de profundidade. E se minha análise está correta – o que espero ansiosamente que não – tão cedo não sairemos desta situação. Parece que nos contentamos em ingressar no mundo “sério e competente” dos grandes países científicos, aqueles que produzem ganhadores de Nobel.
Enquanto pensarmos assim, o máximo que conseguiremos como nação é tentar aqui e ali sermos aceitos como sócios do clube deles, dos países que importam. Como se não pudéssemos pensar a ciência e seus fundamentos de modo diferente e que o caminho que estes países seguiram representam um “eldorado” maravilhoso de sociedade tecnológica bem estruturada e graciosamente constituída, que deve ser copiada e imitada a todo custo! Mas uma sociedade como a que existe hoje nos Estados Unidos, que tem 10% de sua população cumprindo penas em prisões, não pode pretender ser aceita como representativa do melhor dos mundos!
Para encurtar uma história que nos levaria longe, pois se levarmos sua pergunta às últimas consequências, é esta análise sócio-política dos modos de fazer ciência que deveríamos examinar, eu me concentraria numa só questão: o cientista no Brasil está sendo formado para que ele tenha uma alta colocação, segundo os critérios impostos pelas agências fomentadoras de pesquisa, em particular pelo CNPq. Enquanto, o ideal do cientista for obter uma boa avaliação deste Conselho ou de órgãos similares, minha proposta de renovação está a priori fadada ao fracasso.

Vox – E qual é a alternativa?
Novello – Costumo dizer aos meus alunos e colaboradores que almejar o Nobel é ter pouca ambição. O objetivo não deve ser trabalhar exclusivamente nas pesquisas valorizadas pelo CNPq, mas sim naquelas que de alguma forma nos coloquem frente a frente com questões fundamentais, mesmo que não possamos resolvê-las no momento. Uma estrada de 100 quilômetros, dizia um famoso dirigente chinês, começa com o primeiro passo. Mas para isso o jovem não deve dialogar com o CNPq, com sua máquina limitadora e construtora de papers, mas sim com a natureza. O cientista não deve procurar em suas pesquisas a escolha fácil e gratificante que pode levar a ter reconhecimentos e honrarias impostas e de acesso quase obrigatório dessas agências tipo CNPq, mas sim procurar o diálogo às vezes difícil e mesmo quase impossível com a natureza. Assim, estaremos colocando os cientistas para desempenhar um papel equivalente ao reservado aos dirigentes, profetas e religiosos, produtores no passado dos mitos cosmogônicos das antigas civilizações. Seria isso pedir demais aos jovens?

Vox – O senhor demonstra profundo conhecimento filosófico. Qual era a visão filosófica de Einstein?
Novello – Eu não gostaria de comentar aquilo que podemos chamar de “a visão filosófica de Einstein”. Não agora. Meu embate com ele está neste momento, no terreno da disputa científica, posto que a pré-gravidade tem a pretensão de substituir parte da relatividade geral, como expliquei em pergunta anterior. Mas eu poderia comentar a necessidade de uma resposta à durabilidade de nosso universo. Esta é uma questão técnica e que pode ser respondida pela união de uma teoria cosmológica e observações da estrutura global do universo. O cosmólogo John Richard Gott III, propôs uma curiosa descrição do universo onde existiriam curvas do tipo tempo fechadas, permitindo o processo que simplificadamente chamamos de volta-ao-passado, segundo suas palavras o universo seria a “mãe de si próprio”.
O que ele quer dizer com esta frase estranha pode ser resumido na afirmação de que em um universo possuindo aqueles caminhos ao passado, a origem poderia estar não no começo, mas no eterno processo de (re)construção do universo. É difícil mostrar que este cenário de J. R. Gott III esteja certo ou errado, mas ele aponta na direção de que se deixarmos de lado a hipótese grandiosa — mas sem grande apoio observacional — de que o universo admite um tempo único global, muitas e estranhas (para o nosso sentido newtoniano convencional) histórias do universo podem ser feitas.

Vox – No seu "O que é Cosmologia", o senhor cita vários pensadores, problematizando os contextos em que eles pensaram a origem das coisas. Deixa, porém, de citar Bento de Espinosa, que no século XVII já propunha um mundo produtor de si mesmo, cuja existência é necessária, afastando, por filosófica e logicamente absurda, a idéia de um Deus criador e transcendente. O modelo espinosano, no entanto, é o que mais se aproxima, entre os filósofos antigos e modernos, daquilo que conhecemos hoje. Einstein foi leitor de Espinosa, chamava-o de "mestre, o primeiro de todos nós" e referiu-se a ele em várias cartas. O que senhor pensa da filosofia de Espinosa, no que tange à explicação do "tudo-que-existe"? Ele poderia vir a ser o filósofo de referência para a cosmologia?
Novello – Conheço pouco Spinoza, mas este pouco me permite ter por ele uma enorme admiração. Mas como disse em meu livro não devemos considerar estes amigos da sabedoria como nossos companheiros, mas sim como leais concorrentes. Segundo Gilles Deleuze, filosofar é inventar conceitos. A ciência, como os demais saberes, tem seu modo particular de interpretar o mundo. Eu, como cosmólogo, gostaria de me limitar a este modo. Em outro momento poderemos voltar a esta questão e estendê-la para além da ciência da cosmologia. Talvez fosse conveniente acrescentar que o livro termina com o seguinte comentário: “Como vimos nessa caminhada, o cosmólogo pode afirmar, a partir da constatação formal da instabilidade do Vazio, a partir do decaimento e transformação deste Vazio, que não seria possível não haver alguma coisa: o Universo estava condenado a existir”. A partir desta conclusão, não seria necessário repensar a eternidade e o sentido que podemos atribuir a esta “condenação”?

Vox – Como o senhor explicaria, para o público leigo, os modelos cosmológicos atuais (teoria-M, supercordas, tetraedro...)? Poderia resumir os mais importantes, apresentando também seus pressupostos e indicando a que tipo de Universo (ou de representação de Universo) cada modelo pode levar?
Novello – Precisamos separar o que é especulação, dentro de uma teoria comprovada de propostas de solução, de teorias não-comprovadas. A teoria das cordas não possui nenhum suporte observacional até este momento. Assim é salutar para uma atitude científica considerá-la como uma dentre várias outras candidatas possíveis de gerar uma descrição da natureza que ainda não tiveram sucesso a não ser (no caso da teoria das cordas) de público, e isto graças a certos livros de divulgação que transmitem não o conhecimento científico, mas sim a especulação do mês.
Eu me limitarei então a comentar as propostas que foram feitas até aqui usando a relatividade geral. No que diz respeito à cosmologia, existem duas formas principais de geometrias compatíveis com a teoria atual da gravitação e com os dados observacionais. A importante distinção entre elas pode ser simplificada argumentando que, uma possui uma singularidade separada de nós por um tempo finito e que foi interpretada como “começo do universo” e a outra proponente de um universo que se estende para um passado infinito, o que chamaríamos de universo eterno. Note que ambos cenários pressupõem a possibilidade de definir um tempo gaussiano global.

Vox – Quais as diferenças entre estes dois cenários?
Novello – No primeiro caso, o universo teria um começo singular onde tudo-que-existe (incluindo o espaço-tempo) seria projetado na realidade em uma situação que todas as quantidades físicas divergem, isto é, teriam valor infinito. Assim, a densidade de energia e a temperatura de equilíbrio do universo valeriam infinito. Em outras palavras, seriam inobserváveis. E, como tudo o que segue, dependeria deste momento inacessível. Esta estrutura do universo seria irracional: não poderíamos ter dele – e para sempre – uma descrição racional completa. Para o outro cenário competitivo, o universo teria passado por uma fase anterior colapsante, onde o seu volume total diminuiria com o passar do tempo cósmico, atingiria um mínimo e inverteria o processo passando a uma fase de expansão, a atual, onde o volume espacial total aumenta com o passar do tempo.
Para ambos os modelos, a fonte da geometria pode ser associada a um fluido perfeito. A principal diferença reside na equação de estado que relaciona a densidade de energia com a pressão. Enquanto, no caso do universo singular, a fonte tem pressão positiva ao longo de toda sua história, no caso do universo eterno isto não acontece. Neste caso, o fluido perfeito pode ser identificado a campos não-lineares, como por exemplo, o campo eletromagnético modificado da versão linear de Maxwell. Contrariamente ao que a mídia internacional e a nacional tem propagado há anos, ambos cenários são compatíveis com dados observacionais que nos vêm do universo. No estágio atual de nosso conhecimento científico, é impossível decidir entre um ou outro destes dois modelos.



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* Os autores são, dentre formações diversas, alunos do Curso de Especialização em Divulgação Científica, pelo Núcleo José Reis ECA-USP.

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